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Segunda-feira, 13/11/2017

Aquisição de Linguagem Oral pela criança surda

Tags: surdez, artigo.

 

 

Aquisição de Linguagem Oral pela criança surda: qual o papel que a família e a escola desempenham nesse processo? Na minha opinião, ambas têm papel fundamental, e foi por isso que encomendei este post à fonoaudióloga Mônica Campello.

“Sendo um universo que sempre me fascinou desde a infância marcada pelo convívio frequente, a Fonoaudiologia foi o caminho que encontrei para estar mais próxima dos meus amigos surdos e promover o contato entre nós através da língua portuguesa. Relevando o lado polêmico que o aprendizado da língua portuguesa oral por surdos muitas vezes evoca, me emociona e sou tomada por uma alegria recompensadora quando crianças surdas que atendo começam a emitir, com propriedade, suas primeiras palavras.

Sabemos que os primeiros dois anos de uma criança são um período de audição passiva; um período de escuta, onde ela conhece e compreende uma língua para então poder emiti-la. A criança surda, de uma maneira geral, a partir do momento que faz uso do Aparelho de Amplificação Sonora Individual (AASI) ou a do Implante Coclear (IC), precisa também passar por esse período de escuta, por meio da tecnologia, para começar aprender a se expressar oralmente, também.

 

Português ou Libras?

 

É necessário esclarecer que aprender a Língua Portuguesa oral não impossibilita o aprendizado da Língua Brasileira de Sinais (Libras) ou vice-versa. Por isso ressalvo o também (ou seja, as duas línguas, sinais e oral). A partir do momento que temos essa compreensão que são duas línguas distintas e que podem fazer parte da realidade de muitas pessoas surdas, o aprendizado sendo o mais precoce possível, se torna real e pode acontecer. Bem, mas também temos conhecimento de casos onde por algum motivo, a linguagem oral pode não se desenvolver ou se desenvolver aquém do esperado, mas essa é uma outra conversa.

Hoje, aqui, neste espaço, vamos falar sobre a linguagem oral e como os pais e a escola desempenham papéis importantes para que ela comece a acontecer no dia a dia do convívio familiar, escolar e terapêutico.

Levando em consideração que em apenas aproximadamente 3% do tempo a criança está em terapia, enquanto passa 97% do seu tempo com a família e na escola, temos que sensibilizar os pais e/ou responsáveis sobre a importância de terem atitude de escuta cultivando, neles e na criança, o hábito de promover percepção auditiva em situações do dia a dia em seus lares e na escola. Desenvolver as habilidades mentais superiores para obter conhecimento sobre o mundo só é possível a partir do momento que vivenciamos situações naturais, para que possamos desenvolvê-las a partir da experiência vivida. Com isso, vamos dar atenção e maximizar a função auditiva, que surge a partir do momento que a criança é exposta ao mundo sonoro, fazendo com que por meio da tecnologia a criança aprenda a escutar e a falar.

A criança deve ser estimulada o quanto antes na descoberta de que ter acesso ao mundo sonoro, dentro de suas possibilidades fisiológicas, pode lhe dar prazer e para isso é necessário que use constantemente seu dispositivo eletrônico, só o tirando para tomar banho ou dormir, para que a escuta aconteça preparando-a para emissão de suas primeiras palavras.

 

O ambiente escolar e familiar

 

O ambiente familiar e escolar são tão ricos de recursos e situações de escuta que devemos aproveitar sempre as oportunidades que surgirem para que ela aconteça. A criança irá aprender, por exemplo, por meio de analogias; olhando, comparando, relacionando e associando, sendo que o processo cognitivo afeta como ouvimos e a forma como qual ouvimos afetará todo esse conhecimento. Ao falarmos com a criança surda devemos sempre oferecer pistas visuais para que se torne mais fácil o entendimento por ela sobre o assunto que estamos falando.

Em casa ou na escola temos infinitas possibilidades no dia a dia para que a linguagem compreensiva e expressiva aconteça, como exemplifico a seguir:


A aprendizagem deve ser gostosa

 

É importante lembrarmos que toda experiência de aprendizagem deve ser gostosa, agradável e trazer diversão à criança. Quanto mais a criança participar ativamente de vivências prazerosas, mais aprendizado acontecerá. E durante essas brincadeiras e atividades devemos estimular sempre sua produção verbal ou repetição (exemplo): Olha, a Vovó chegou!!! Oi Vovó! Vovó! …de forma a encorajar essa produção oral que inicialmente poderá não ser tão perfeita, mas que com certeza será modulada permitindo-nos constatar que o input auditivo estará acontecendo.

Nas fases mais precoces nossa fala com a criança deve ser bem melodiosa e quando o bebê começar a balbuciar, os pais podem repetir esse balbucio adicionando novos sons, pois dessa forma estará oportunizando a criança ouvir também sons diferentes daqueles que começa a produzir.

A criança surda mais nova que atendo, agora com um ano e sete meses, com perda neurosensorial profunda bilateral, aguardando cirurgia de implante coclear, iniciou atendimento precoce logo após o diagnóstico, quando também iniciou o processo de adaptação de seus Aparelhos de Amplificação Sonora Individual (AASI). Suas vocalizações estão cada vez mais ricas com fonemas diversos e ela já utiliza algumas produções orais melódicas contextualizadas para nos fazer entender seus desejos.

Ao ver um cachorro o identifica vocalizando o “au au”; ao querer alguém perto dela, emite também chamando com suas pequenas mãozinhas! (v)em! (v)em! e essa comunicação nos encanta. Os pais participam dos atendimentos. No primeiro contato com a escola conversamos durante duas horas com os profissionais e os pais sempre trazem novidades observadas em casa, vez ou outra acompanhada de um vídeo para ilustrar. Parceria total! Com certeza seu prognóstico é de sucesso, pelo comprometimento que pudemos observar de todos que a cercam e pelas vocalizações que a tornam cada vez mais tagarela.

Todo esse trabalho direcionado para o desenvolvimento da fala é muito rico, sendo que para que aconteça é necessário que a criança seja, o mais brevemente possível, exposta a linguagem oral. A cognição, a linguagem, a fala e as funções comunicativas e habilidades conversacionais devem ser desenvolvidas por meio de um trabalho sistemático voltado para as habilidades auditivas e com a parceria importante e fundamental da família e da escola. Ah, cercado também de muito amor e certeza de que a criança surda é – sim – capaz de ganhar o mundo se comunicando e se fazendo entender por todos nós. Lembrando que este destaque é para as possibilidades de desenvolvimento de linguagem oral.

Beijos e até a próxima!”

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FONTE: http://cronicasdasurdez.com/linguagem-oral-crianca-surda/


   
           



   
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