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Segunda-feira, 13/11/2017

Aquisição de Linguagem Oral pela criança surda

Tags: surdez, artigo.

 

 

Aquisição de Linguagem Oral pela criança surda: qual o papel que a família e a escola desempenham nesse processo? Na minha opinião, ambas têm papel fundamental, e foi por isso que encomendei este post à fonoaudióloga Mônica Campello.

“Sendo um universo que sempre me fascinou desde a infância marcada pelo convívio frequente, a Fonoaudiologia foi o caminho que encontrei para estar mais próxima dos meus amigos surdos e promover o contato entre nós através da língua portuguesa. Relevando o lado polêmico que o aprendizado da língua portuguesa oral por surdos muitas vezes evoca, me emociona e sou tomada por uma alegria recompensadora quando crianças surdas que atendo começam a emitir, com propriedade, suas primeiras palavras.

Sabemos que os primeiros dois anos de uma criança são um período de audição passiva; um período de escuta, onde ela conhece e compreende uma língua para então poder emiti-la. A criança surda, de uma maneira geral, a partir do momento que faz uso do Aparelho de Amplificação Sonora Individual (AASI) ou a do Implante Coclear (IC), precisa também passar por esse período de escuta, por meio da tecnologia, para começar aprender a se expressar oralmente, também.

 

Português ou Libras?

 

É necessário esclarecer que aprender a Língua Portuguesa oral não impossibilita o aprendizado da Língua Brasileira de Sinais (Libras) ou vice-versa. Por isso ressalvo o também (ou seja, as duas línguas, sinais e oral). A partir do momento que temos essa compreensão que são duas línguas distintas e que podem fazer parte da realidade de muitas pessoas surdas, o aprendizado sendo o mais precoce possível, se torna real e pode acontecer. Bem, mas também temos conhecimento de casos onde por algum motivo, a linguagem oral pode não se desenvolver ou se desenvolver aquém do esperado, mas essa é uma outra conversa.

Hoje, aqui, neste espaço, vamos falar sobre a linguagem oral e como os pais e a escola desempenham papéis importantes para que ela comece a acontecer no dia a dia do convívio familiar, escolar e terapêutico.

Levando em consideração que em apenas aproximadamente 3% do tempo a criança está em terapia, enquanto passa 97% do seu tempo com a família e na escola, temos que sensibilizar os pais e/ou responsáveis sobre a importância de terem atitude de escuta cultivando, neles e na criança, o hábito de promover percepção auditiva em situações do dia a dia em seus lares e na escola. Desenvolver as habilidades mentais superiores para obter conhecimento sobre o mundo só é possível a partir do momento que vivenciamos situações naturais, para que possamos desenvolvê-las a partir da experiência vivida. Com isso, vamos dar atenção e maximizar a função auditiva, que surge a partir do momento que a criança é exposta ao mundo sonoro, fazendo com que por meio da tecnologia a criança aprenda a escutar e a falar.

A criança deve ser estimulada o quanto antes na descoberta de que ter acesso ao mundo sonoro, dentro de suas possibilidades fisiológicas, pode lhe dar prazer e para isso é necessário que use constantemente seu dispositivo eletrônico, só o tirando para tomar banho ou dormir, para que a escuta aconteça preparando-a para emissão de suas primeiras palavras.

 

O ambiente escolar e familiar

 

O ambiente familiar e escolar são tão ricos de recursos e situações de escuta que devemos aproveitar sempre as oportunidades que surgirem para que ela aconteça. A criança irá aprender, por exemplo, por meio de analogias; olhando, comparando, relacionando e associando, sendo que o processo cognitivo afeta como ouvimos e a forma como qual ouvimos afetará todo esse conhecimento. Ao falarmos com a criança surda devemos sempre oferecer pistas visuais para que se torne mais fácil o entendimento por ela sobre o assunto que estamos falando.

Em casa ou na escola temos infinitas possibilidades no dia a dia para que a linguagem compreensiva e expressiva aconteça, como exemplifico a seguir:


A aprendizagem deve ser gostosa

 

É importante lembrarmos que toda experiência de aprendizagem deve ser gostosa, agradável e trazer diversão à criança. Quanto mais a criança participar ativamente de vivências prazerosas, mais aprendizado acontecerá. E durante essas brincadeiras e atividades devemos estimular sempre sua produção verbal ou repetição (exemplo): Olha, a Vovó chegou!!! Oi Vovó! Vovó! …de forma a encorajar essa produção oral que inicialmente poderá não ser tão perfeita, mas que com certeza será modulada permitindo-nos constatar que o input auditivo estará acontecendo.

Nas fases mais precoces nossa fala com a criança deve ser bem melodiosa e quando o bebê começar a balbuciar, os pais podem repetir esse balbucio adicionando novos sons, pois dessa forma estará oportunizando a criança ouvir também sons diferentes daqueles que começa a produzir.

A criança surda mais nova que atendo, agora com um ano e sete meses, com perda neurosensorial profunda bilateral, aguardando cirurgia de implante coclear, iniciou atendimento precoce logo após o diagnóstico, quando também iniciou o processo de adaptação de seus Aparelhos de Amplificação Sonora Individual (AASI). Suas vocalizações estão cada vez mais ricas com fonemas diversos e ela já utiliza algumas produções orais melódicas contextualizadas para nos fazer entender seus desejos.

Ao ver um cachorro o identifica vocalizando o “au au”; ao querer alguém perto dela, emite também chamando com suas pequenas mãozinhas! (v)em! (v)em! e essa comunicação nos encanta. Os pais participam dos atendimentos. No primeiro contato com a escola conversamos durante duas horas com os profissionais e os pais sempre trazem novidades observadas em casa, vez ou outra acompanhada de um vídeo para ilustrar. Parceria total! Com certeza seu prognóstico é de sucesso, pelo comprometimento que pudemos observar de todos que a cercam e pelas vocalizações que a tornam cada vez mais tagarela.

Todo esse trabalho direcionado para o desenvolvimento da fala é muito rico, sendo que para que aconteça é necessário que a criança seja, o mais brevemente possível, exposta a linguagem oral. A cognição, a linguagem, a fala e as funções comunicativas e habilidades conversacionais devem ser desenvolvidas por meio de um trabalho sistemático voltado para as habilidades auditivas e com a parceria importante e fundamental da família e da escola. Ah, cercado também de muito amor e certeza de que a criança surda é – sim – capaz de ganhar o mundo se comunicando e se fazendo entender por todos nós. Lembrando que este destaque é para as possibilidades de desenvolvimento de linguagem oral.

Beijos e até a próxima!”

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FONTE: http://cronicasdasurdez.com/linguagem-oral-crianca-surda/


   
           



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Terça-feira, 24/10/2017

Processo de aprendizagem estatística com foco em medidas de tendência central e dispersão

Tags: matemática, artigo.

Jorge Santos

UNIRIO/SME-RJ

Leandro Nascimento

UNIRIO/SMEDuque de Caxias

Rafael Costa

UNIRIO/SME-RJ/Unisuam

Wagner Santos

UNIRIO/IBC/Seeduc-RJ

Luciane Velasque

UNIRIO


Introdução

O presente artigo apresenta uma sequência didática elaborada pelos autores no âmbito do mestrado PROFMAT no polo UNIRIO. O projeto foi desenvolvido pelos alunos do mestrado que são professores da Educação Básica no Estado do Rio de Janeiro, sob a orientação da professora Dra. Luciane Velasque. Motivados pelo desafio de ministrar aulas dinâmicas e atrativas para seus alunos, em especial pela necessidade e desejo de fazer com que a Matemática seja agradável e significativa, surgiu a ideia de elaborar uma sequência didática de atividades para ensino e compreensão de todo o processo de aprendizagem estatística para alunos da Educação Básica.

Pretendemos completar todo o percurso: desde a definição do tema de pesquisa, sua elaboração e coleta de dados, terminando com a análise deles. Daremos foco na aprendizagem dos conceitos das medidas de tendência central e dispersão com o auxílio do pacote de aplicativos Google Docs e do software Geogebra. Observamos que esse campo de estudo ainda carece de pesquisas didático-pedagógicas, principalmente a partir da nova proposta da Base Nacional Curricular Comum (BNCC), na qual a Estatística vem ganhando espaço ao se tornar um dos cinco eixos norteadores para o ensino de Matemática, justificando assim a relevância deste trabalho. Nosso objetivo é contribuir para uma reflexão por parte dos professores da Educação Básica que buscam apoio para proporcionar uma melhor implementação de situações de aprendizagem em suas salas de aula.

O sistema de ensino do país atualmente é regido pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) e pelos currículos estaduais e municipais.Nesse cenário,os conteúdos relativos ao ensino de Estatística Básica estão inseridos na grade curricular de Matemática.

A partir dessa problemática, Costa e Nacarato (2011) identificaram em sua pesquisa que mesmo após a inclusão dos conteúdos de Estatística nos PCN, no final da década de 1990, os professores formados ainda apresentavam dificuldades em relação ao conhecimento estatístico.

Com isso, a atuação dos professores de Matemática fica comprometida no que diz respeito à construção dos significados estatísticos com seus alunos. E muitas vezes esses professores escolhem apresentar os conteúdos amparados pelas ferramentas tradicionais de ensino, como quadro e giz, e focados na aplicação de fórmulas sem se preocupar com a contextualização ou até mesmo sem conseguir fazê-la de maneira adequada para que os alunos desenvolvam suas próprias intuições estatísticas.

O ensino de Estatística deve ser abordado a partir de uma situação que desperte o interesse do aluno para uma investigação em que o estudante deve se envolver com todo o processo,desde aescolha do tema da pesquisa, a coleta de dados, até interpretação e discussão de resultados, conforme ressalta o documento Reflexões dos conteúdos de probabilidade e estatística na escola no Brasil, publicado no site da Associação Brasileira de Estatística (ABE), visitado em junho de 2016.

Dessa forma os estudantes passam a ser ativos no seu processo de aprendizagem, contribuindo para que os conceitos aprendidos tenham significado, pois partiram de um contexto próprio dos estudantes.

Em consonância com essa discussão preliminar, a disciplina de Probabilidade e Estatística do PROFMAT/UNIRIO teve como principal característica trabalhar os conteúdos visando desenvolver habilidades e competências com seus discentes, que são professores da Educação Básica no Estado do Rio de Janeiro, para que eles fossem capazes de elaborar propostas de atividades que tenham como metodologia de ensino a que está apresentada no documento publicado pela ABE, que preza a participação ativa dos alunos no processo de aprendizagem dos conteúdos referentes à Estatística, desde a coleta de dados até a sua análise.

Além disso, aproveitamos a oportunidade para incluir o uso de tecnologia como auxílio para coleta e análise de dados, apoiados por um dos princípios gerais listados nesse mesmo documento, que diz que devemos “introduzir sempre que for possível o uso complementar de ferramentas computacionais, aplicativos e kits de materiais didáticos concretos para auxílio dos professores”.

Nossa proposta corrobora a afirmação de Silva et al. (2015, p.1):

    A transformação tecnológica não somente nos trouxe o aumento na capacidade de processamento dos computadores, mas também uma nova maneira de pensar o processo de ensino/aprendizagem.

A partir disso, nosso trabalho almeja que o professor e o aluno façam uso do computador ou até mesmo do smartphone como recurso pedagógico,tendo como objetivo principal estimular o interesse e a curiosidade, auxiliando no aprendizado de maneira mais efetiva, a partir de experiências e atividades compartilhadas e motivadoras para o processo de ensino e aprendizagem, possibilitando maior contato com a disciplina em tarefas desafiadoras de investigação.

Sendo assim, proporemos atividades de Estatística com desenvolvimento colaborativo a partir da coleta de dados com a utilização do pacote de aplicativos Google Docs e faremos a análise descritiva desses dados com o software Geogebra, por serem de acesso gratuito, além de possuírem grande quantidade de informações e dicas de utilização na internet.
 

Referencial teórico

A sociedade brasileira está em constante mudança, e com isso as tecnologias e o processo de ensino e aprendizagem de forma geral têm sofrido grande impacto. O ensino de Matemática vem acompanhando essas mudanças, não apenas de conteúdo como também de objetivos e metodologias.

Nesse contexto, os professores de Matemática precisam estar atentos para fazer uso dessas mudanças, e a partir delas gerar reflexão, problematizar as questões do cotidiano, além de manipular objetos para que os estudantes se apropriem dos conceitos desejados.

Os PCN (Brasil, 1998, p. 21), dentro deste contexto, ressaltam que:

    Entre os obstáculos que o Brasil tem enfrentado em relação ao ensino de Matemática, aponta-se a falta de uma formação profissional qualificada, as restrições ligadas às condições de trabalho, a ausência de políticas educacionais efetivas e as interpretações equivocadas de concepções pedagógicas.

Uma maneira de tentar superar os obstáculos que o processo de ensino e aprendizagem de Matemática vem enfrentando pode se dar pela utilização da tecnologia em sala de aula como recurso pedagógico.

É inegável que há uma crescente utilização de tecnologias em diversos segmentos da sociedade, e na educação não poderia acontecer de outra maneira.É possível perceber que a tecnologia está a cada dia mais presente em nosso cotidiano, nos computadores, tablets, smartphones etc., especialmente no cotidiano dos alunos. No entanto, ainda existe certa resistência por parte de alguns professores na utilização desses e de outros recursos tecnológicos em sala de aula por diversos motivos.

O processo de ensino e aprendizagem deve se desenvolver de forma investigativa e colaborativa, e para que isso seja possível o professor precisa superar os estigmas adquiridos ao longo de sua formação docente, como afirma Moraes (1996, p.59): “a grande maioria dos professores ainda continua privilegiando a velha maneira com que foram ensinados, reforçando o velho ensino, afastando o aprendiz do processo de construção do conhecimento”.

Naturalmente, um ensino apoiado na utilização de tecnologia, em especial de softwares dinâmicos, tende a despertar o interesse por parte dos alunos para o aprendizado, como assegura Romero:

    A tecnologia, especificamente os softwares educacionais, disponibiliza oportunidade de motivação e apropriação do conteúdo estudado em sala de aula, uma vez que em muitas escolas de rede pública e particular professores utilizam recursos didáticos como lousa e giz para ministrar suas aulas, este é um dos diversos problemas que causam o crescimento da qualidade não satisfatória de ensino, principalmente na rede estadual (Romero, 2006, apud Cavalcante, 2010, p. 3).

A partir da análise dessa problemática, do vasto campo de possibilidades existentes, e tendo em mente que a atuação do professor tem importância ímpar como mediador do conhecimento, cabe a nós ressaltar que, além das questões profissionais, existe uma particular e pessoal de cada professor que possui consigo a missão de transmitir de maneiras diversificadas os conteúdos propostos aos seus alunos, buscando a excelência na aprendizagem.

Assim sendo, faz-se urgente e necessária a busca por alternativas de melhorar a qualidade de ensino e tornar as aulas de Matemática mais motivadoras, com o objetivo de estabelecer um ambiente propício para ensino e aprendizagem, que visa atender aos alunos e que eles aprendam os conteúdos de forma satisfatória.

Nessa perspectiva, é importante observar que existe atualmente no mercado grande diversidade de tecnologias, softwares educacionais e recursos digitaisque ofereceminúmeras opções de aplicação dos conceitos matemáticos e, consequentemente, de conceitos estatísticos, além de facilitar aplicações interdisciplinares.

No entanto, muitos recursos digitais e softwares não apresentam em si objetivo de ajudar na reflexão e resolução de problemas; por isso vale ressaltar que a metodologia e os objetivos do professor para utilização deles é primordial para que o processo de ensino e aprendizagem aconteça de maneira exitosa. Isso fica evidenciado em Piccoli, que diz que:

    a escolha do software deve se fundamentar na proposta pedagógica de Matemática da escola, o professor deve escolher um tipo de software adequado para possibilitar que o aluno construa seu conhecimento, sem deixar de lado o profundo domínio que precisa ter tanto do conteúdo abordado como do programa que utilizará (Cláudio; Cunha, 2001, apud Piccoli, 2006, p. 45-46).

Nossa proposta surgiu a partir da necessidade de gerar alternativas para abordar conceitos estatísticos, como coleta de dados e análise descritiva deles com o auxílio de recursos tecnológicos computacionais. Fomos motivados a realizar essas atividades nas aulas da disciplina Probabilidade e Estatística do mestrado do PROFMAT/UNIRIO, para serem aplicadas na Educação Básica.

Pretendemos, a partir dessa sequência de atividades,possibilitar caminhos e gerar discussões com a utilização desses recursos, colaborando para que os professores da Educação Básica levem aos seus alunos um ambiente agradável, atraente e construtivo com o intuito de propiciar um processo de ensino e aprendizagem de Estatística de forma significativa.

Neste trabalho serão propostas atividades com a utilização de recursos tecnológicos digitais, como os aplicativos do Google Docs e o software Geogebra, com o intuito do apresentar ao aluno ferramentas de estudo e compreensão dos conceitos de Estatística.

A escolha do software Geogebra se deu por ser dinâmico e multiplataforma para o ensino de Matemática; em especial, possui vários recursos para trabalhar conceitos estatísticos, tais como medidas de tendência central e representações gráficas, entre outros, além de ser gratuito, de fácil aquisição e manipulação e possuir versões para smartphones. Além disso, possui várias informações na rede que podem auxiliar no processo de construção do conhecimento por parte dos estudantes, proporcionando nos alunos uma postura reflexiva em relação aos conceitos trabalhados.

A escolha do Google Docs, especificamente o Formulário, aconteceu por fazer parte de um pacote de aplicativos da Google, que funciona on-line e possui recursos que permitem aos usuários criar e editar documentos, possibilita criar pesquisas e coletas de informações, sendo ótimo recurso para o ensino da Estatística, além de ser de simples utilização e fácil acesso, inclusive a partir de smartphones.
 

Metodologia

No contexto do ensino da Estatística, serão apresentadas três etapas,que têm como objetivoa coleta e análise descritiva dos dados. Após a discussão com os alunos sobre o tema a ser trabalhado, deve-se listar as variáveis (características) sobre as quais serão feitas as perguntas aos entrevistados.

Como os conceitos estatísticos abordados serão medidas de tendência central e dispersão, as variáveis exemplificadas serão as classificadas como variáveis quantitativas. É importante ressaltar que,para otimizar o processo de aprendizagem,a etapa da coleta de dados pode ser realizada com a utilização dos smartphones dos estudantes.
 

Etapa 1 – Montagem de um formulário no Google Docs

Construa um formulário no Google Formulários com as seguintes variáveis: idade, altura e peso (evidencie para o usuário a unidade da variável, por exemplo: idade (anos), altura (cm) e peso (kg)),como é mostrado na Figura 1.

Figura 1: Construção do formulário.

a) Testar o formulário antes de deixar disponível para os alunos (vide Figura 2).

Figura 2: Teste do formulário.

Neste item, destacamos a importância do teste do formulário antes de ser aplicado aos estudantes. Mostramos acima que um usuário pode comprometer nossas variáveis inserindo textos nas respostas, fato que deve ser restringido por quem estiver com interesse na análise dos dados futuramente.

b) Restringir as variáveis para proteção dos dados e da pesquisa (Vide Figura 3).

Figura 3: Restrição de variáveis.

Ao clicar na validação de dados, terá a possibilidade de restringir as variáveis para minimizar os erros no lançamento de dados. Por exemplo, espera-se que a varável idade seja um número inteiro (vide Figura 4) e é possível até inserir uma mensagem de erro para o usuário, auxiliando no preenchimento do formulário.

Figura 4: Inserindo uma restrição.

Nas variáveis altura (cm) e peso (kg), é recomendável que a restrição seja feita por meio de um intervalo, pois isso evitará valores extremos fora da realidade (vide Figura 5).

Figura 5: Restrição em um intervalo.

c) Fazer download do arquivo no formato específico para o Geogebra (csv, txt, dat) (vide Figura 6).

Figura 6:Download das respostas.

 

Etapa 2 – Média, mediana e moda no Geogebra

Nesta etapa temos como objetivo a ambientação no software Geogebra e sua manipulação. Vislumbramos também que a ferramenta computacional pode auxiliar a apropriação dos conteúdos de estatística, especificamente medidas de tendência central e dispersão.

a) Importar os dados de uma planilha gerada pelo formulário do Google Docs (vide Figura 7).

Figura 7:Importação de dados da planilha.

b) Criar listas de dados brutos referentes às variáveis altura, idade e peso (vide Figura 8).

Figura 8: Criação de lista de dados brutos da altura.

c) Obter a média, a mediana e a moda de cada variável (Handaya, 2016) (vide Figura 9).

Figura 9: Obtendo a média da altura.

d) Inserir uma caixa Exibir/Esconder para as medidas de tendência central de cada variável (vide Figura 10).

Figura 10: Caixa Exibir/Esconder.

Etapa 3 – Trabalhando conceitos

Nesta etapa, temos como objetivo central explorar os conceitos de medida de tendência central e dispersão por meio do software Geogebra, mostrando suas potencialidades e justificando seu uso.

a) Utilizando o Geogebra obtenha média, mediana, moda e desvio padrão da variável idade.

b) Observe que,se alterarmos o valor da célula B2 e B3 para 50, o valor de tendência central que sofrerá alteração é a média.

c) Se alterarmos o valor das células B3 e B8 para 15 teremos mudança na média com certeza e possivelmente na moda.

d) Retorne aos valores originais da tabela. Crie um seletor aem que aÎ [15, 65]. Insira a variável a na célula da coluna B. Manipule o seletor a livremente e perceba as mudanças nas medidas de tendência central e dispersão.

d.1) Para quais valores de a temos alteração na moda? Justifique a sua resposta.

d.2) Para quais valores de a temos alteração na média? Justifique a sua resposta.

d.3) Para quais valores de a temos alteração na mediana? Justifique a sua resposta.

d.4) Qual medida de tendência central sofre mais alteração na inclusão de um novo item?

d.5) O que acontece com o desvio padrão quando a está com valores extremos?
Resultado/discussão

Na etapa 1 temos o objetivo de que o professor construa juntamente com a sua turma um formulário que gerará o objeto da análise. Tivemos cuidado, pois passamos em nossas turmas, por isso que cada docente (item a)deve colocar valores extremos e perceber que o formulário os aceitará. Esse fato deve ser resolvido (como no item b), em que orientamos a colocação de restrição nas variáveis que estiverem no formulário, para não prejudicar as fórmulas. Nesta proposta o formulário do Google é fundamental para que a análise de dados comece após a inserção dos dados, ganhando tempo para o estudo dos resultados.

Na etapa 2 propomos a importação do banco de dados para o Geogebra (item a), a criação da lista de dados brutos para cada variável numérica (item b), a obtenção das medidas de tendência central (item c) e a ferramenta Exibir/Esconder,que possibilitará que o usuário exiba apenas as medidas de uma variável específica ou de todo o grupo de varáveis que fizer os procedimentos solicitados. Nesta proposta, o software é fundamental para que ganhemos velocidade na análise dos dados; no entanto, o professor deve comentar com seus alunos a pertinência do uso da tecnologia e que ela não deve prevalecer perante os conceitos estatísticos abordados nos itens.

Na etapa 3 sugerimos uma exploração dos conceitos que foram adquiridos facilmente com a manipulação do software, para que os discentes percebam que não basta obter as medidas de tendência central se não soubermos o que elas representam. O principal ganho do uso do softwarenas listas propostas em cada etapa é que os alunos percebam quando é pertinente a utilização de cada medida de tendência central, e o uso do seletor (vide Figuras 11 e 12) nos auxilia nessa perspectiva e a potencializa, pois realizar esta mesma atividade no quadro seria inviável pela quantidade de contas que seriam geradas, afastando-nos do objetivo primordial deste trabalho.  

Figura 11: Uso do seletor.

Figura 12: Uso do seletor.

 

Além disso, sugerimos a inclusão do desvio padrão (item a) após as reflexões nas nossas aulas de Estatística do mestrado na UNIRIO, em que percebemos que não devemos trabalhar de forma isolada as medidas de tendência central e dispersão, pois uma corrobora a análise da outra e auxilia nas escolhas oriundas da análise.
Considerações finais

Como já citado por Chagas (2003, p. 25-27), a tarefa básica do professor é de tentar estimular o desenvolvimento criativo do aluno, apoiado não só nos conhecimentos acumulados pela ciência em questão, mas também em sua aplicação às demais ciências. A escola deve oferecer materiais para tornar possível o trabalho do docente. O ensino de Matemática deve estar apoiado em experiências agradáveis, capazes de favorecer o desenvolvimento de atitudes positivas que, por sua vez, conduzirão a uma melhor aprendizagem.

Com as atividades propostas, tivemos como finalidade alcançar uma aprendizagem significativa para o educando, apresentando possíveis aplicações no ensino de Estatística que possam vir a servir de modelo, incentivando novas práticas e auxiliando os professores para que orquestrem inovações no ensino dos conceitos estatísticos com o auxílio do Geogebra ou outro software afim, sempre caminhando no sentido de possibilitar ao educando a resolução de situações problema e o desenvolvimento do pensamento crítico, formando um cidadão participativo e consciente do seu papel social.
 

Referências

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. 2ª versão. Brasília: MEC, 2015. Disponível em:http://basenacionalcomum.mec.gov.br/documentos/BNCCAPRESENTACAO.pdf. Acesso em 08 ago. 2016.

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria da Educação Média e Tecnológica. Parâmetros Curriculares Nacionais–3º e 4º ciclos do Ensino Fundamental – Matemática. Brasília: MEC, 1998. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/matematica.pdf. Acesso em 22 jul. 2016.

CAVALCANTE, N. I. S. O Ensino de Matemática e o software Geogebra: discutindo potencialidades dessa relação como recurso para o ensino de funções.VI EPBEM–Monteiro-PB. Encontro Paraibano de Educação Matemática. Novembro de 2010. Disponível em:http://www.pucrs.br/famat/viali/tic_literatura/artigos/pacotes/RE-12419073.pdf. Acesso em 7 ago.2016.

CHAGAS, E. P. F. Educação Matemática na sala de aula. 2003, p. 25-27.

COSTA, A.; NACARATO, A. M. A estocástica na formação do professor de Matemática:percepções de professores e de formadores.Bolema, Rio Claro, v. 24, nº 40, p. 367-386, dez. 2011. Disponível em: http://www.periodicos.rc.biblioteca.unesp.br/index.php/bolema/article/view/5092. Acesso em 8 ago. 2016.

HANDAYA, A. Construção de uma ferramenta no Geogebra para determinar as medidas resumo de dados distribuídos por classe.XII Encontro Nacional de Educação Matemática, São Paulo, julho de 2016. Disponível em :http://sbem.bruc.com.br/xiienem/pdf/8221_3713_ID.pdf. Acesso em 08 ago. 2016.

MORAES, M. C. O paradigma educacional emergente: implicações na formação do professor e nas práticas pedagógicas.Em Aberto, Brasília, v. 1, p. 57-69, 1996. Disponível em: http://twingo.ucb.br:8080/jspui/handle/10869/530. Acesso em8 ago. 2016.

PICCOLI, L. A. P. A construção de conceitos em Matemática: uma proposta usando Tecnologia de Informação. Dissertação (mestrado). Pós-Graduação em Educação em Ciências e Matemática. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2006. 108f. Disponível em: http://tede.pucrs.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=81. Acesso em 8 ago. 2016.

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OBSERVAÇÃO: O trabalho foi feito em colaboração com professor Leandro Mendonça Nascimento da E. M. Escola Monte Castelo - 6ª CRE

 

Publicado em 24 de janeiro de 2017 

Fonte: http://educacaopublica.cederj.edu.br/revista/artigos 


   
           



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Segunda-feira, 21/08/2017

Confúcio e a ordem moral

Tags: artigo, secretário.

 

Governa por meio de decretos, disciplina por meio de castigos, e o povo usará subterfúgios e não terá consciência. Guia-o pela virtude e pela moral, e ele terá consciência e alcançará o bem.

                                                                 Analectos, II, 3

Desde o supremo governante até o homem mais humilde, a base fundamental é igual para todos: o aperfeiçoamento de si mesmo.

                                                                     O grande estudo, VI


As forças menores fluem por toda parte, como correntes de rios, ao passo que as grandes forças da Criação movem-se em silêncio, mas constantemente.

                                                                          A conduta da vida, XXIX

 


Confúcio (ca. 551-479 a.C.) pertence ao seleto grupo de personagens históricos de primeira linha, fundadores de projetos civilizatórios, que nunca exerceram poder político nem deixaram textos que tenham sido transmitidos às gerações seguintes. A gigantesca influência que exerceu sobre a posteridade, e que perdura até hoje, tem origem em ensinamentos transmitidos por um grupo de discípulos em textos breves, descontínuos, ricos em possibilidades de interpretação. Os historiadores divergem até mesmo sobre importantes aspectos factuais de sua vida. Mesmo assim, os chineses o
consideram o sábio nacional mais relevante e reconhecem nele “um mestre para dez mil gerações”.

Sabe-se que nasceu em uma época de grande turbulência, em que o império chinês estava fragmentado em numerosos estados que lutavam entre si. Crítico da ordem social vigente, estudou na capital e peregrinou durante doze anos, como mais um filósofo ambulante em busca de uma oportunidade para associar sua doutrina à ação política. Com 68 anos, retornou fracassado ao estado natal, sem conseguir disseminar sua mensagem. Refletiu sobre isso: “Não me aflijo porque os homens não me conhecem. Aflijo-me por não conhecer os homens.”


* * *

Confúcio não propôs instituições econômicas, legislações ou um regime político específico. Não anunciou uma revelação nem experimentou qualquer outra forma de vivência religiosa. Não falou de mistérios de outro mundo. Não foi um místico. Pregou um conhecimento que gira em torno da beleza, da ordem e da autenticidade, defendendo um ideal de perfeição moral que se obtém pela prática de virtudes humanas.

Para ele, o que está oculto e precisa ser desvelado é justamente o que perpassa tudo, o que não cessa de se expor, o que se desdobra da maneira mais ampla. É onipresente e invisível, pois não se esgota em nenhuma das suas manifestações.

Ao contrário da ciência ocidental, seu pensamento não pretende conhecer objetos e estabelecer uma incontroversa verdade sobre cada um deles. Ao destacar o fundo de imanência que torna tudo possível, busca encontrar os caminhos da harmonia.

Reconhece que a realidade se nos apresenta na forma de opostos, pois, quando nasce algo, o seu oposto simultaneamente se cria. Mas diz que o contraste é relativo. Nenhum dos lados pode vencer completamente, pois o momento da vitória é também o momento da mudança.

 As condições antagônicas se reconciliam pela sucessão, cada qual se transformando na outra. Não devemos nos prender a um dos polos e atribuir ao outro uma posição completamente negativa. Uma atitude inflexível induz a atitude oposta, perpetuando o confronto e dificultando o fluxo das mutações. Precisamos encontrar a posição correta, aquela que nos permite vivenciar os contrastes no tempo, o grande produtor de regulação.


* * *

Confúcio deu grande importância à recuperação dos saberes antigos, pois considerava petulante e fútil tentar criar o absolutamente novo, ignorando o processo histórico que nos moldou. Mas não foi um mero repetidor do passado: sabia que nada pode ser restaurado em sua forma anterior. Ao ser entendido e atualizado, o antigo se transforma dinamicamente, fazendo surgir uma filosofia que renova a tradição e, por isso, tem maior possibilidade de ser difundida.

Ao tentar recuperar os fundamentos da civilização chinesa, Confúcio trabalhou para revigorá-la. Seu tema central foi o homem em comunidade. Enquanto os animais são regulados pelos instintos, que lhes impõem comportamentos restritos e repetitivos, cada um de nós precisa tornar-se humano, escolhendo entre muitas possibilidades. Isso ocorre progressivamente, no interior de uma comunidade. Daí a necessidade de uma ordem, que, no entanto, não deve ser imposta por meio de violência, ameaças e castigos, que disseminam medo e hipocrisia. A ação eficaz exige mediações que inibam ou promovam aquilo que cada um traz dentro de si, em germe.

É de educação que se trata. De volta a Lu, seu estado natal, Confúcio fundou uma escola, que funcionou em sua própria casa, tendo em vista preparar jovens para carreiras de Estado, transmitindo-lhes os ritos, a escrita, o cálculo, o trato com cavalos, o manejo do arco e a música. O uso do arco mimetizava a vida: “Na prática do arco e flecha há algo semelhante ao princípio que existe na vida de um homem moral: quando o arqueiro não atinge o alvo, ele se vira e busca a causa do fracasso em si mesmo.” E a música era um componente essencial do processo educacional: “O espírito da
omunidade se determina pela música que escuta, e o espírito do indivíduo encontra nela os motivos que ordenam sua vida.”


* * *

Dedicou bastante esforço ao problema fundamental de como ensinar e aprender. Na base de tudo estava, a seu ver, uma vida ética, pois quem segue má conduta nunca terá acesso ao que é essencial. Critica um aluno: “Tem muita pressa.” Elogia outro: “Não comete duas vezes o mesmo erro.” Renega atalhos: “Não ensino quem não se empenha sinceramente em aprender.” E refere-se a um esforço sem fim: “Quem aprende, nem por isso penetra na verdade; quem penetra na verdade, nem por isso é capaz de perseverar nela; quem persevera, nem por isso está em condições de interpretá-la em cada circunstância particular.”

Valorizou os ritos e as convenções sociais, que não distinguia da moral, da política e do direito. O povo, dizia, não é guiado por ideias abstratas, mas por costumes, que formam uma espécie de “segunda natureza”. O homem precisa ser educado em um ambiente que estimule as virtudes coletivas. Quando um governo usa seguidamente as leis, algo vai mal, pois se o ambiente é bom, com um poder sem soberba, com respeito a todos no trato, o modelo virtuoso se multiplica naturalmente, tornando desnecessário o apelo à lei.

Observou, compilou e ordenou as regras da vida cotidiana, as cerimônias, as celebrações e as normas administrativas. Mas nunca foi dogmático: a forma só tem valor se estiver impregnada de autenticidade: “Uma posição eminente sem nobreza de caráter, culto sem veneração, práticas funerárias sem sincera dor são situações que não suporto.”

Nunca propôs ideias fixas e preconcebidas: “O homem nobre não adota uma atitude fechada, a favor ou contra, diante de nada no mundo. Mantém-se aberto. Suspende o juízo ao deparar com o que não compreende. Permanece dúctil. Caracteriza-se pela firmeza do caráter, não pela obstinação.” Por isso, também o ódio e a ira são lícitos: o bom sabe amar e odiar de modo justo.


* * *

A herança confuciana marcou profundamente a civilização chinesa. Nela, a obrigação moral é a base da ordem social e deve orientar as ações cada um. A escola, a família, o governo e as demais instituições têm como objetivo educar os homens para que sintam por si mesmos essa obrigação: a força moral de cada um é a base da organização social. A tradução de Ku Hung Ming, da qual partimos, destaca essa ideia.

Num momento em que a China adquire crescente presença internacional, torna-se cada vez mais importante conhecermos os fundamentos intelectuais de sua civilização.

 

César Benjamin

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Segunda-feira, 07/08/2017

Uma certa ideia de Brasil

Tags: artigo, secretário.

 


César Benjamin
Para o livro Enciclopédia de Brasilidade, organizado por Carlos Lessa



“Os discursos de que não viu, são discursos.
Os discursos de quem viu, são profecias.”
Antônio Vieira, Sermão da Terceira Dominga do Advento, 1669




1. Muitos motivos se somaram, ao longo da nossa história, para dificultar a tarefa de decifrar, mesmo imperfeitamente, o enigma brasileiro. Já independentes, continuamos a ser um animal muito estranho no zoológico das nações: sociedade recente, produto da expansão européia, concebida desde o início para servir ao mercado mundial, organizada em torno de um escravismo prolongado e tardio, única monarquia em um continente republicano, assentada em uma extensa base territorial situada nos trópicos, com um povo em processo de formação, sem um passado profundo onde pudesse ancorar sua identidade. 

Que futuro estaria reservado para uma nação assim? 

Durante muito tempo, as tentativas feitas para compreender esse enigma e constituir uma teoria do Brasil foram, em larga medida, infrutíferas. Não sabíamos fazer outra coisa senão copiar saberes da Europa, onde predominavam os determinismos geográfico (“a civilização é uma conquista dos países frios, pois é a vitória das sociedades contra as dificuldades impostas pelo ambiente”) e racial (“a civilização expressa o potencial de alguns subgrupos humanos mais aptos”) que irremediavelmente nos condenavam. Enquanto o Brasil se olhou no espelho europeu só pôde construir uma imagem negativa e pessimista de si mesmo, ao constatar sua óbvia condição não-européia.

2. Houve muitos esforços meritórios para superar esse impasse. Porém, só na década de 1930, depois de mais de cem anos de vida independente, começamos a puxar consistentemente o fio da nossa própria meada. Devemos ao conservador Gilberto Freyre, em 1934, com Casa-grande & senzala, uma revolucionária releitura do Brasil, visto a partir do complexo do açúcar e à luz da moderna antropologia cultural, disciplina que então apenas engatinhava. Abandonando os enfoques da geografia e da raça, Freyre revirou tudo de ponta-cabeça, realizando um tremendo resgate do papel civilizatório de negros e índios dentro da formação social brasileira. Dos portugueses, elogiou a miscibilidade, a plasticidade e a mobilidade, características que os distinguiam dos colonizadores de origem anglo-saxã. 

A colonização do Brasil, ele diz, não foi obra do Estado ou das demais instituições formais, todas aqui muito fracas. Foi obra da família patriarcal, em torno da qual constituiuse um modo de vida completo e específico. O latifúndio monocultor e o regime escravista de produzir afastavam, separavam, machucavam, mas a família extensa, cheia de agregados, a poligamia num contexto de escassez de mulheres brancas e a presença de considerável escravaria doméstica constituíam espaços de intercâmbio, nos quais negros e negras, índios e índias – especialmente, negras e índias –, muito mais adaptados aos trópicos, colonizaram o colonizador, ensinando-o a viver aqui. Mulatos, cafusos e mamelucos se multiplicaram, criando fissuras na dualidade radical que opunha senhores e escravos. 

Nada escapa ao abrangente olhar investigativo do antropólogo: comidas, lendas, roupas, cores, odores, festas, canções, arquitetura, sexualidade, superstições, costumes, ferramentas e técnicas, palavras e expressões de linguagem. Cartas de bisavós saem de velhos baús. Escabrosos relatórios da Inquisição são expostos com fina ironia por esse bisbilhoteiro que estava interessado, antes de tudo, em desvelar a singularidade da experiência brasileira. Ela não se encontrava na política nem na economia, muito menos nos feitos dos grandes homens. Encontrava-se na cultura, obra coletiva de gerações anônimas. Uma cultura de síntese, que afrouxou e diluiu a tensão entre os códigos morais e o mundo-da-vida, tensão constitutiva das sociedades de tradição judaico-cristã. Nossa alegria, diz Freyre, a devemos a índios e negros nunca completamente moralizados pelo cristianismo do colonizador. Um cristianismo, aliás, que também precisou misturar-se.

3. Devemos a Sérgio Buarque, em 1936, com Raízes do Brasil, um instigante ensaio – “clássico de nascença”, nas palavras de Antônio Candido – que tentava compreender como uma sociedade rural, de raízes ibéricas, experimentaria o inevitável trânsito para a modernidade urbana e “americana” do século XX. Ao contrário do pernambucano Gilberto Freyre, o paulista Sérgio Buarque não sentia nostalgia pelo Brasil agrário que estava se desfazendo, mas tampouco acreditava na eficácia das vias autoritárias, em voga na década de 1930, que prometiam acelerar a modernização pelo alto. Observa o tempo secular da história. Considera a modernização um processo. Também busca a singularidade do processo brasileiro, mas com olhar sociológico: somos uma sociedade transplantada, mas nacional, com características próprias. A dimensão privada e afetiva da vida sempre se sobrepôs – para o bem e para o mal – à impessoalidade burocrática, não raro descambando para o passionalismo e a impulsividade típicos do homem cordial, num quadro geral de ausência de direitos formais. 

Nossa história, diz Sérgio Buarque, girou em torno do “complexo ibérico”. Mas o êxito da colonização portuguesa não decorreu de um empreendimento metódico e racional, não emanou de uma vontade construtora e enérgica; buscou a riqueza que custa ousadia, não a riqueza que custa trabalho. A ética da aventura prevaleceu sobre a ética do trabalho. É uma herança atrasada, em via de superação, mas foi a base da nacionalidade, constituiu as “raízes do Brasil”. Não se pode nem se deve, simplesmente, recusá-la e negá-la, mas sim transformá-la. 

“Precisamos ousar inaugurar, de forma inédita, o que nunca se fez nessas latitudes” – eis uma frase cheia de significados: devíamos encontrar o caminho para superar o nosso atraso e, ao mesmo tempo, afirmar a nossa identidade, potencializando as nossas virtudes. Teria de ser, necessariamente, um caminho cheio de especificidades, como são cheios de especificidades, quando autênticos, os caminhos de todos os povos. Tremendo desafio, numa sociedade, ele diz, em que a inteligência sempre foi um ornamento, um beletrismo ávido por importar as últimas modas, incapaz de produzir conhecimento e impulsionar qualquer mudança real. 

Mesmo assim, Sérgio Buarque é otimista. Anuncia que “a nossa revolução” está em marcha, com a dissolução do complexo ibérico de base rural e a emergência de um novo ator decisivo, as massas urbanas. Crescentemente numerosas, libertadas da tutela dos senhores locais, elas não mais seriam demandantes de favores, mas de direitos. No lugar da comunidade doméstica, patriarcal e privada, seríamos enfim levados a fundar a comunidade política, de modo a transformar, ao nosso modo, o homem cordial em cidadão.

4. Apenas seis anos depois, em seqüência vertiginosa, Caio Prado Jr. publica Formação do Brasil contemporâneo, a primeira grande síntese historiográfica brasileira em quase cem anos, se contarmos desde Varnhagen. Realiza nesse texto o definitivo desvendamento das nossas origens como uma empresa colonial, acompanhado da hipótese forte de que a história do Brasil tem um sentido profundo, o da transformação dessa empresa, que fomos, em uma nação, que seremos. 

Caio Prado percebe que a colonização do Brasil representou um problema novo, pois os padrões mais conhecidos de dominação ao longo da História humana – a pilhagem de riquezas acumuladas, a cobrança de tributos e o estabelecimento de comércio desigual – não se aplicavam nestas terras sem metais preciosos (no século XVI) e habitadas por tribos dispersas, que viviam no Neolítico. A solução do problema demandou mais de trinta anos. Organizou-se finalmente uma empresa territorial de grande dimensão, com administração portuguesa, capitais holandeses e venezianos, mão-de-obra indígena e africana, tecnologia desenvolvida em Chipre e matéria-prima dos Açores e da ilha da Madeira – a cana. Esses elementos foram articulados em uma holding multinacional movida por força de trabalho escrava, mas regida pelo cálculo econômico e pela busca do lucro. Tudo o que existia aqui – a paisagem, a fauna, a flora e as gentes – teve de ser decomposto e desfeito, depois recomposto e refeito, de outras maneiras, para que o empreendimento mercantil prosperasse. 

Na origem, diz Caio Prado, não fomos uma nação, nem propriamente uma sociedade; fomos uma empresa territorial voltada para fora e controlada de fora. A empresa-Brasil sempre deu certo: propiciou bons negócios e gerou altíssimo lucro. Nos séculos XVI e XVII foi excelente o negócio do açúcar, a primeira mercadoria de consumo de massas em escala planetária, em torno da qual se formou o moderno mercado mundial. Foi depois magnífico o negócio do ouro; graças a ele, a Inglaterra – que nunca teve minas de ouro – constituiu as enormes reservas que lhe permitiram criar, no século XIX, o primeiro padrão monetário mundial (o padrão libra-ouro), símbolo e suporte de sua hegemonia. A partir de 1840, até bem entrado o século XX, foi maravilhoso o negócio do café, estimulante de baixo custo e fácil distribuição, ofertado à classe trabalhadora da Europa e dos Estados Unidos que precisava ser disciplinada para o trabalho fabril. Além disso, permeando toda a nossa história, foi sempre estupendo o negócio do endividamento perpétuo dessa empresa-Brasil, induzido pelos seus controladores de fora. 

Porém, a existência multi-secular da gigantesca e diversificada empresa territorial criou paulatinamente os elementos constitutivos de uma nova nação: “Povoou-se um território semideserto; organizou-se nele uma vida humana que diverge tanto daquela que havia aqui, dos indígenas e suas nações, como também da dos portugueses que empreenderam a ocupação. Criou-se no plano das realizações humanas algo novo (...): uma população bem diferenciada e caracterizada, até etnicamente, habitando determinado território; uma estrutura material particular, constituída na base de elementos próprios; uma organização social definida por relações específicas; finalmente, uma consciência, mais precisamente uma certa ‘atitude’ mental coletiva particular. (...) Esse novo processo histórico se dilatou e se arrasta. Ainda não chegou ao seu termo.” 

Eis aí uma importante chave de leitura para compreendermos as tensões que experimentamos até hoje: elas refletem o choque entre o Brasil empresa-para-os-outros, que ainda somos, e o Brasil nação-para-si, que desejamos ser. Completar esse processo, “fazê-lo chegar ao seu termo” – ou, ainda na linguagem de Caio Prado, realizar a Revolução Brasileira – é fazer desabrochar a última grande nacionalidade do Ocidente moderno, uma nacionalidade tardia, cujos potenciais permanecem em grande medida incubados.

5. Devemos em seguida a Celso Furtado uma brilhante síntese da Formação econômica do Brasil, um texto que também falava de História para mostrar os desafios fundamentais da modernização brasileira no século XX. Como os demais, Furtado escreve um ensaio de interpretação, uma “história pensada”, a partir do ponto de vista de um economista com sólida formação humanista. Descarta a idéia de que o Brasil teria reproduzido tardiamente uma sociedade de tipo feudal. Descreve as características dos ciclos econômicos baseados na produção de bens primários e impulsionados pela demanda externa, e aponta as insuficiências e os desequilíbrios que deles decorrem. Olha as regiões, estuda os casos de decadência sem transformação. Mostra que em no ssa história, recorrentemente, a fonte de demanda autônoma foram as exportações de alimentos, matérias-primas e minérios; que o mercado interno se atrofiou, induzindo a um baixo efeito multiplicador da renda gerada; que houve permanente vazamento de riqueza, em grande escala, para o exterior. Permanecemos na periferia do sistema-mundo que nos deu à luz. Como poderíamos sair dessa posição? 

Ao longo de toda sua obra, Furtado diz que o subdesenvolvimento é um processo específico, que tende a reproduzir-se no tempo, e não uma etapa transitória, que conteria em si, mais ou menos naturalmente, as condições de sua superação. O fortalecimento do mercado interno, o desenvolvimento da indústria e a formação de um núcleo endógeno de criação e difusão de progresso técnico – necessários para a superação da nossa condição – não poderiam resultar de forças espontâneas. Exigiam uma intervenção consciente, voltada para produzir mutações. Tornou-se clássica a sua análise sobre a adoção pelo Brasil, de maneira inovadora e pragmática, de eficazes políticas anticíclicas em plena crise de 19291933, antes mesmo que essas políticas tivessem sido claramente modeladas pela moderna teoria econômica. Elas criaram uma situação nova, que lançou as bases do nosso processo de industrialização. Levá-lo às últimas conseqüências era o desafio a vencer. 

Furtado nunca dissociou conhecimento e valores, economia e sociedade: “O processo de reprodução das desigualdades sociais exerce uma influência decisiva sobre as formas de utilização do excedente. Portanto, a composição do excedente é em grande parte um reflexo do sistema de dominação social, o que significa que sem um conhecimento das estruturas de poder é impossível avançar no estudo do desenvolvimento das forças produtivas.” Poucos são os economistas atuais capazes de conduzir análises desse tipo.

6. Tributárias de diferentes influências – notadamente Franz Boas, Max Weber, Karl Marx e John M. Keynes, nessa ordem –, essas quatro obras seminais lançaram as bases da moderna ciência social brasileira e permitiram o início de uma fecunda reinterpretação do Brasil. Como pano de fundo estava em marcha o ciclo desenvolvimentista, com a força de processos estruturais (e estruturantes) que nos conduziam, acreditava-se, do passado (população rural, economia agrícola, território fragmentado) ao futuro (população urbana, economia industrial, território integrado). Sabendo falar sobre nós mesmos, com a nossa própria linguagem, tínhamos finalmente uma identidade em construção. Sabendo diferenciar passado e futuro, vivíamos agora em um tempo orientado, condição primeira para se constituir um projeto. Os impasses do Império escravista e a pasmaceira da República Velha haviam ficado para trás. 

Tivemos muitos outros intelectuais visionários e homens de ação. Entre eles, Darcy Ribeiro talvez tenha sido o maior profeta da civilização brasileira. Inverteu radicalmente os velhos argumentos europeus contra nós, afirmando as vantagens da mestiçagem tropical diante de uma pretensa pureza temperada e fria. Mostrou como, aos trancos e barrancos, conseguimos fazer um povo-novo a partir dos grupos humanos que o capitalismo mercantil encontrou neste território ou transplantou para cá – na origem, índios destribalizados, brancos deseuropeizados e negros desafricanizados, depois gente do mundo inteiro. Estudou as características fundamentais desse contingente humano filho da modernidade, o maior povo-novo do mundo moderno. Viu que ele é também um povo-nação, reconhecendo-se como tal, falando uma mesma língua, habitando um território bemdefinido e tendo criado o seu próprio Estado. Debruçado em ampla visão da aventura humana, falou de um povo que ainda está no começo de sua própria história, e cuja identidade – por sua gênese e sua trajetória – não pode basear-se em raça, religião, vocação imperial, xenofobias ou vontade de isolar-se. Um povo que tem na cultura a sua única razão de existir. 

A composição ficava quase completa: éramos um país miscigenado, sentimental e alegre, moderno, culturalmente antropofágico, aberto ao outro e ao novo, desejoso de desenvolver-se, cheio de oportunidades diante de si. O passado nos condenava, mas o futuro nos redimiria. A figura mítica de Macunaíma e a figura real de Garrincha – figuras fora dos padrões, que faziam tudo errado, para no fim dar tudo certo – nos divertiam e nos encorajavam.

7. Produzimos assim, entre as décadas de 1930 e 1960, contornos nítidos de uma certa idéia de Brasil. Não importa discutir se essa idéia estava cem por cento correta ou errada, do ponto de vista de uma pretensa ciência positiva, se era precisa em minúcias, se tudo podia explicar, pois a representação ideológica de uma sociedade sobre si mesma cumpre a função de sinalizar valores, despertar esperanças e mobilizar energias, e não de retratar fielmente “o que existe”. Em certo momento de sua história, depois de quatro séculos em um labirinto, o Brasil reconheceu-se assim e percebeu-se portador de potencialidades insuspeitadas. É impossível exagerar a importância desse passo. Justo por isso, é também impossível exagerar o devastador impacto de sua desconstrução, realizada em troca de nada. 

Ao contrário do que se pensa, nossa crise atual não é, simplesmente, uma crise econômica. Resulta, em primeiro lugar e antes de tudo, da progressiva perda da idéia de Brasil, substituída pelos chavões daquela mesma inteligência ornamental, inútil, farsesca, adepta da moda, a que Sérgio Buarque se referia. A moda hoje é globalização, e a única diferença é que os saberes – hélas! – não são mais importados da Europa, mas dos Estados Unidos. O efeito é o mesmo: como pano de fundo, negatividade e desqualificação do que somos e podemos vir a ser, compensadas agora com doses cavalares de marketing. 

O sofisticado debate sobre a nossa especificidade e os nossos caminhos foi deslegitimado. A mediocridade voltou a mover-se em cena com altivez espantosa, cada vez mais arrogante e orgulhosa de si. Ela não gosta de imaginação, qualidades, invenção de caminhos; gosta de rótulos, pede mesmice. Na década de 1990, pela boca das nossas maiores autoridades e de alguns dos nossos mais influentes intelectuais – sobretudo os economistas –, jogamos fora todo o esforço intelectual anterior e passamos a nos reconhecer como... um mercado emergente. Profunda mudança de ponto de vista. Até então, mesmo que fôssemos uma nação incompleta e muito imperfeita, ainda vivíamos num universo ideológico em que completá-la e aperfeiçoá-la, de uma forma ou de outra, eram as nossas referências comuns. Quando passamos a nos reconhecer apenas como mercado, tudo mudou. Mercado não é lugar de cidadania, solidariedade, soberania, identidade. É espaço de fluxos, dominado pela concorrência, onde sobrevivem os mais fortes, e ponto final.

8. O fato mais notável dos últimos 25 anos, na História do Brasil, é a radical alteração das categorias que organizam e delimitam o nosso imaginário. Recuemos um pouco. No início do século XX, sob influência do positivismo, o Brasil dizia buscar, antes de tudo, civilização e progresso, conceitos que hoje podem soar equivocados ou ingênuos, mas que estavam explicitamente ligados a um futuro humano: a idéia de que progressos materiais pudessem sustentar-se em um vasto retrocesso social ou moral era então inimaginável, pois os avanços nessas várias esferas eram concebidos como paralelos e complementares. Depois, como vimos, o Brasil passou a falar em modernização, formulada como uma resposta ao atraso e à pobreza; o esforço modernizador só era necessário e legítimo porque eliminaria essas mazelas. As pessoas, os grupos sociais e a comunidade nacional, com sua diversidade e complexidade, permaneciam sendo a referência fundamental de um debate que nunca se dissociava de fins e destinos. 

Estamos agora esmagados pelo discurso da competitividade. Nem mesmo no plano das intenções ele expressa alguma grandeza. O pensamento das elites dominantes comporta-se como se elas não mais devessem explicações a ninguém. A competitividade segue a mesma lógica da guerra – conquistar supremacia sobre o outro – e exige apenas um tipo de progresso, de natureza tecnológica. Um progresso dos meios, de alguns meios manejados por poucos, que nada diz sobre fins. Esse conceito vazio de conteúdos humanos e avesso a juízos sociais abrangentes foi alçado à posição de articulador do nosso discurso e legitimador do modelo de sociedade que se deseja implantar. Com o agravante de que, agora, predomina a acumulação financeira – volátil, esperta, sempre de olho no curto prazo, em grande medida fictícia, de natureza intrinsecamente especulativa, com enorme potencial destrutivo. 

O grande capital – pois ele é que é “competitivo” – apresenta-se como portador de uma racionalidade que seria generalizável, sem mediações, para a sociedade como um todo. Inversamente, todas as outras lógicas – a dos pobres, a dos agentes econômicos não capitalistas ou simplesmente não competitivos, a da cidadania, a da soberania, a da cultura, a dos interesses nacionais de longo prazo – são consideradas irracionais ou desimportantes. Devem ser denunciadas, humilhadas e, progressivamente, silenciadas. Não articulam linguagens, mas ruídos; não expressam direitos, mas custos; não apontam para outras maneiras de organizar a sociedade, mas para a desordem e o caos na economia, acenados pelos poderosos como permanente ameaça.

9. Além de vasta cultura e honradez intelectual, Gilberto, Sérgio, Caio, Celso, Darcy e tantos outros, mesmo alinhando-se a correntes teóricas e políticas muito diferentes, mesmo propondo interpretações diversas, tinham uma coisa fundamental em comum: gostavam do Brasil. Desejavam do fundo da alma que o país desse certo e a isso dedicaram suas vidas e seus melhores esforços. Tal sentimento transparece em cada linha que escreveram, em cada gesto que fizeram, em cada palavra que disseram. Havia generosidade neles. Eis aí outra mudança importante: evidentemente, manifestamente, cinicamente, quase explicitamente, os formuladores e divulgadores do novo discurso hegemônico não gostam do Brasil. Gostam de business. O que estamos ouvindo deles, todo o tempo, é que o Brasil, como sociedade, nação e projeto, não tem sentido nenhum. Atrapalha. A esperança-Brasil deu lugar ao risco-Brasil. 

Conferindo aos mais ricos riqueza cada vez maior, associada a padrões culturais e de consumo cada vez mais distantes da realidade local, e condenando a maioria a um padrão de vida em declínio, essa opção alimenta forças centrífugas que apontam para o rompimento dos vínculos históricos e socioculturais que até aqui mantiveram, em algum nível, juntos os cidadãos. Os grupos mais bem-posicionados para participar do mercado mundial ficam cada vez mais tentados a desfazer quaisquer laços de solidariedade nacional, desligando completamente seu padrão de vida, seus valores, a forma de denominar e investir sua riqueza – e, portanto, o seu próprio destino – dos padrões, valores e destino do país como um todo. 

Os fatos do cotidiano mostram como se debilitam rapidamente, entre nós, as bases de uma sociabilidade civilizada: um regime comum de valores, caminhos de mobilidade social ascendente, a idéia de um futuro em construção. As conseqüências disso, no longo prazo, são imprevisíveis. Os segmentos que têm pressa de ser modernos a todo preço pedem a criação de instituições blindadas e de áreas de circulação restringida, onde a competitividade, a lucratividade, a velocidade e o pragmatismo, bem como o estilo de vida a eles associado, possam ostentar-se sem empecilhos. Mas essas instituições e áreas permanecem imersas em um território físico e social muito maior, que contém população diferenciada, necessidades várias, comportamentos múltiplos, problemas outros. É uma ilusão achar que elas possam desatar os laços que as ligam ao contexto em que estão.

10. Darcy Ribeiro mostrou como o primeiro passo no processo de submissão e destruição dos indivíduos indígenas era a transformação do índio específico – o gavião, o urubukaapor, o xavante, o bororo, portador de uma história, integrante de uma comunidade, habitante de um espaço cheio de significados – naquilo que chamou de “índio genérico”, um sem-lugar, cuja indianidade, inscrita no seu corpo mas não mais na sua cultura, passava a ser um signo negativo no mundo dos brancos, no qual ele se inseria sempre por baixo. Acredito que muito da angústia de Darcy, no fim da vida, tenha vindo da percepção de que o povo brasileiro, como um todo, corria o risco de transformar-se em um povo genérico e inespecífico, ao qual também restaria eternizar uma inserção por baixo e tendencialmente declinante no sistema internacional. 

É este o nosso maior desafio, que pode ser visto de vários ângulos. Para retomar a terminologia de Caio Prado, estamos assistindo à vitória – temporária, porque a-histórica – da perspectiva do Brasil empresa-para-os-outros sobre o Brasil nação-para-si. Impõe-se, pois, uma dura luta política e cultural. As alternativas são radicais para ambos os lados. Há uma bifurcação no caminho. O país terá de decidir: ou aceita tornar-se apenas um espaço de fluxos do capital internacional, o que significa ser expulso da História, ou retoma seu processo de construção em novas bases. 

Se quisermos a segunda opção, temos de reencontrar uma idéia de Brasil. Por trás do poderio dos Estados Unidos há uma idéia de Estados Unidos. Por trás da reconstrução do Japão há uma idéia de Japão. Por trás da União Européia há uma idéia de Europa. Por trás da ascensão da China há uma idéia de China. Se não reconstruirmos uma idéia de Brasil, nenhum passo consistente poderemos dar. (O título deste artigo, aliás, é retirado das Memórias do general De Gaulle. Oficial do estado-maior do Exército francês, recusou-se a render-se aos alemães, que naquela fase da guerra pareciam invencíveis, e protagonizou uma fuga espetacular para a Inglaterra, de onde liderou a Resistência. Segundo escreveu, fez isso, afrontando naquele momento todas as probabilidades de êxito, porque tinha na cabeça “uma certa idéia de França”, e a vida sob ocupação não cabia nela.)

11. O esforço dos pensadores que nos antecederam deixou pontos de partida muito valiosos. Mas devemos reconhecer que eles nos falaram de um país que, pelo menos em parte, deixou de existir. O Brasil de Gilberto Freyre girava em torno da família extensa da casa-grande, um espaço integrador dentro da monumental desigualdade; o de Sérgio Buarque apenas iniciava a aventura de uma urbanização que prometia associar-se a modernidade e cidadania; o de Caio Prado mantinha a perspectiva da libertação nacional e do socialismo; o de Celso Furtado era uma economia dinâmica, que experimentava uma acelerada modernização industrial; o de Darcy Ribeiro – cujos ídolos, como sempre dizia, eram Anísio Teixeira e Cândido Rondon – ampliava a escola pública de boa qualidade e recusava o genocídio de suas populações mais fragilizadas. 

Os elementos centrais com que todos eles trabalharam foram profundamente alterados nas últimas décadas. A economia mais dinâmica do mundo, que dobrou seu produto cinco vezes seguidas em cinqüenta anos, caminha para experimentar a terceira década rastejante. Todos os mecanismos que garantiram mobilidade social na maior parte do século XX foram impiedosamente desmontados, a começar da escola pública. A urbanização acelerada concentrou multidões desenraizadas, enquanto a desorganização do mercado de trabalho multiplicava excluídos. Tornado refém do sistema financeiro, o Estado nacional deixou de cumprir funções estruturantes essenciais. A fronteira agrícola foi fechada, estabelecendo-se nas áreas de ocupação recente uma estrutura fundiária ainda mais concentrada que a das áreas de ocupação secular. Nesta sociedade urbanizada e estagnada, os meios eletrônicos de comunicação de massas tornaram-se, de longe, a principal instituição difusora de desejos, comportamentos e valores, inoculando diariamente, maciçamente, irresponsavelmente uma necessidade de consumo desagregadora, pois inacessível. “Nunca foi tão grande a distância entre o que somos e o que poderíamos ser”, disse recentemente Celso Furtado, antes de nos deixar. 

Todos esses processos estão aí, a nos desafiar, exigindo de nós um esforço de análise talvez mais árduo do que aquele realizado pelas gerações dos nossos mestres. Ainda não sabemos bem até que ponto tais processos alteraram definitivamente as condições sociológicas da nossa existência, e em que direção. Não temos uma teoria do Brasil contemporâneo. Estamos em vôo cego, imersos em uma crise de destino, a maior da nossa existência. A História está nos olhando nos olhos, perguntando: “Afinal, o que vocês são? O que querem ser? Tem sentido existir Brasil? Qual Brasil?” 

Temos hesitado em enfrentar questões tão difíceis, tão radicais. Preferimos brincar de macroeconomia. Mas a disjunção está posta: ou o povo brasileiro, movido por uma idéia de si mesmo, assume pela primeira vez o comando de sua nação, para resgatá-la, reinventá-la e desenvolvê-la, ou assistiremos neste século ao desfazimento do Brasil. Se ocorrer, este último desfecho representará um duríssimo golpe nas melhores promessas da modernidade ocidental e será um retrocesso no processo civilizatório de toda a humanidade. A invenção do futuro se tornará muito mais penosa, para todos. 

 

“Os discursos de quem viu”, dizia Vieira, “são profecias”.




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